Monday, March 31, 2008

Historia da Caricatura em Portugal (Parte 21)

Sebastião Sanhudo - 1
Por: Osvaldo Macedo de Sousa

1877
Este novo ano de 77 trará um novo fôlego ao mundo gráfico-humorístico. Nascem os jornais "O Serrote", “O Pavão", e "O Gajo" onde Manuel Macedo dará colaboração, assim como "XPTO" jornal sem qualquer história, mas que terá um cabeçalho da autoria do Columbano Bordallo Pinheiro.
Este filho de Manuel Maria será no fundo a grande referência da pintura nacional, em que a alma sombria e triste ficará como marca, embora pareça, segundo contam testemunhos de vivência, que na juventude era mais humorista que o irmão. Se estes títulos são referência de 77, mais importante será o surgimento de Sebastião Sanhudo em "O Pae Paulino".
O "Pae Paulino" é o nome de um dos 'bravos do Mindelo', um negro brasileiro que após as lutas liberais se ficaria pelo Porto (morre em 1870), tornando-se uma figura típica desta cidade. O jornal baptizado com este nome é propriedade de A.M. de Souza, dirigido por Agostinho Albano, tendo como ilustrador Sebastião Sanhudo. "0 Pae Paulino" é um «Periódico de Câmara - Óptica. Quando se fallou n'esta publicação, disse um intrometido: - Que não era necessária, porque já havia muitas. Mas accudiu logo um orador, exclamando: - Que era precisa, porque não havia nenhuma! Seguiram-se debates, e apurou-se, finalmente, que ambos os contendores tinham razão. Mas que o último é que era realmente o mais racional. Ainda que também se concordou que o primeiro não era tolo de todo definitivamente. Isto posto, seguiram-se vozes: - Precisa-se d'um periódico de muito alcance! E outras vozes exclamaram: Appoiado! N' esta parte, entremetteu-se alguém, perguntando: Se era appoiado pelo governo ou pela opinião publica? Os oradores demoraram-se três horas a explicar que o appoiado fôra, exclusivamente, respeitante à índole da folha. E isto foi muito bem visto aos olhos de Deus. E de muito bom agouro. Porque se n'uma coisa tão simples se gastou tanto tempo, por mais simplório que fosse o periódico prometteria longa duração.»
«Por causa do título, principiaram com os symbolos às voltas, e quizeram que o jornal se chamasse: A BALA, A POLVORA, O CANHÃO. Mas isto fez muito fumo, e não feriu ninguém de modo que ficasse mortalmente convencido. - Um periódico de muito alcance... - Um periódico de muita vista... - Ora adeus! Ahi temos nós o Pae Paulino. - Um symbolo que tem ôlho!»
«D'aqui em diante, os trabalhos começaram com toda a regularidade, e ficou resolvido que o Pae Paulino fôsse: Um periódico de bons costumes - uma vez cada semana. Que esta abstenção de mau procedimento não pudesse custar, até ver, mais do que um vintem. Que tivesse duas páginas de Ilustrações de todos os assumptos mais cómicos do paiz, e seus arredores, até à China, inclusive ...»
Contudo o mais importante será o Sebastião de Sousa Sanhudo, um artista que ficará referenciado como o Raphael do Norte («O seu talento de humorista vincou traços admiráveis, de concepção e de verdade. Sem a impetuosidade do génio criador de Bordalo, todavia salientou-se e por tal modo, que mere­ceu o apodo de Bordalo do Norte» in "Civilização" nº 37/1832 pág. 22). Não terá o génio humorístico do mestre, apesar de na técnica da litografia lhe ser superior, mas foi um artista inteligente, que soube dominar as suas limitações, soube ser original não caindo na imitação raphaelista, soube procurar o seu público, e dessa forma triunfar numa longa e bem sucedida carreira. O próprio Raphael cultivará com ele a amizade, e a admiração pelo seu trabalho independente, como o farão Leal da Câmara, Celso Hermínio e tantos outros.
Natural de Ponte de Lima, onde nasceu a 20 de Fevereiro de 1851, viria para o Porto no início da década de 70, mas como refere Alberto Meira num Brevete Biográfico: «Desde muito novo se manifestou a sua predilecção pelo desenho, que ensaiava livremente, sem mestres, nem orientadores. Assentou praça como voluntário aqui, no Porto, e passando a pronto, serviu numa das repartições do Quartel General da Divisão, facto a que não deve ter sido estranha a influência de seu padrinho, D. Sebastião Pereira da Silva, da Casa de Bertiandos.»
«Frequentou por essa época a Academia Portuense de Belas Artes e, como aluno do 3° ano de Desenho, apresentou na Exposição trienal de 1874 dois trabalhos, sendo um deles o retrato do Comandante da Divisão, General José de Vasconcelos Correia, depois Conde de Torres Novas. Por aí ficaram as suas habilitações oficiais.
Obtida a baixa do serviço militar e entrando na chamada vida prática, estabeleceu uma oficina de litografia que a breve prazo adquiria larga clientela e se recomendava pela perfeição dos trabalhos. Tal actividade industrial, pacata e ordenada, não se harmonizava inteiramente com o temperamento crítico, indisciplinado, mas sempre bondoso e folgazão do Artista, e eis que, em 1877, aparece-nos como ilustrador de «O Pai Paulino», semanário humorístico, tendo Agostinho Albano como director, e Moutinho de Sousa como gerente.»
Alberto Meira não refere aqui onde aprendeu ele as técnicas da litografia, mas segundo testemunhos dispersos cremos que já em Ponte de Lima ele foi aprendiz de litógrafo, e artes gráficas, que aperfeiçoou no Porto, e só depois de se sentir senhor de todas as técnicas, e não querendo trabalhar para os outros, se estabeleceu, com sucesso em casa própria. Ficaram célebres os retratos que o seu estilete gravou na pedra litográfica, e que fizeram da sua oficina um centro de arte, uma tertúlia viva.

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